Carisma

carisma 1ZMistério Cristológico: Parábola do Pai Misericordioso

Este meu filho estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado…” (Lc 15, 24)

 Jesus nos revela a figura de um pai que ultrapassa todos os estereótipos possíveis; ninguém jamais conseguiria ser pai como Deus.

Ele nos fala do Pai com a autoridade de quem, por excelência, conhece e experimenta de Seu Amor. Jesus nos revela o Pai (Hb 1, 1-2). Ele é rico em misericórdia (Lc 15, 20), capaz de tudo perdoar (Lc 15, 21s), tudo esquecer, tudo recomeçar, oferecendo-nos sempre novas oportunidades. De um modo muito especial, Ele sempre festeja com os Seus, o retorno de um filho (Lc 15, 24).

Através da parábola do Pai Misericordioso (Lc 15, 11-32), Jesus descreve o Amor de Deus com muita propriedade. Ele nos apresenta um Pai que cuida de cada um de nós com um amor incomparavelmente maior que o amor com que cuida dos lírios do campo e das aves do céu (Mt 6, 25-34), um Pai que, porque nos ama “loucamente”, faz continuamente “loucuras” por nós, seus filhos. Um Pai que não discrimina ninguém, mas que ama com um amor de predileção os pequenos, os humildes, os marginalizados e os excluídos, que “tem um fraco” pelos mais fracos, porque são eles os mais necessitados de sua misericórdia e de seu perdão.

Jesus não nos fala unicamente do Pai, mas enfatiza o encontro de amor com Deus que cada um de nós faz durante a vida. Fala-nos de um Deus nos espera ao longe. Que jamais desiste de um filho. Que nos procura continuamente com Seu olhar cuidador.

Ele é um Pai com a capacidade de enxergar para além dos montes que encobrem nossos corações. Ele persiste em reencontrar aqueles que modelou em Sua vontade: “Eis que nas palmas de minhas mãos Eu te gravei; as tuas muralhas estão constantemente sob os meus olhos.” (Is49, 16)

O Pai sabe tão bem de nossa condição, que continuamente nos acompanha, derramando a Sua Misericórdia e esperando pacientemente por nós. Nosso Deus é o Deus da Paciência. Ele gostaria de nos alerta, de nos prevenir contra os inúmeros perigos, e de nos convencer de que em sua casa, poderíamos encontrar tudo o que procuramos fora. Como gostaria de trazer-nos de volta com sua autoridade paterna e de manter-nos perto, de modo que não viéssemos a sofrer. Mas o Seu amor não se permite forçar, agarrar e empurrar. Deixa-nos livres sempre. É precisamente a potencialidade do amor de Deus que é a fonte do Seu “sofrimento”. O Deus criador de todas as coisas escolheu ser, acima de tudo, um Pai.

Ele não se põe a caminho para nos buscar. Espera-nos ansiosamente! Não toma a atitude de nos trazer de volta, porque isto seria nos roubar a liberdade. Porém, no instante (sempre) que nos colocarmos a caminho, Ele imediatamente se antecipará no encontro, porque valoriza nossas iniciativas, fortalecendo assim a decisão do retorno. Ele que conhece a fragilidade de nossos passos, cuida para que retornemos com segurança, providenciando todos os meios necessários.

Não sejamos resistentes ao amor de Deus. Reconhecer-se necessitado da Misericórdia Divina, sem justificativas para os erros, é sinal de maturidade e de desejo de mudança.

Deus Pai está sempre movido de compaixão e de ternura para nos encontrar no caminho de volta para casa. Ele viu o filho no caminho de volta para casa “quando estava ainda longe”. Na verdade, nunca deixou de esperá-lo desde o dia de sua partida.

O filho havia deixado a casa paterna, mas nunca se afastado do afeto, do amor do Pai. Ele percorria todos os dias com sua vista cansada o caminho percorrido pelo filho desde aquele triste dia. Por isso, no momento em que o avistou e o reconheceu com o olhar penetrante e infalível do amor, depois da última curva do caminho, seu coração encheu-se de compaixão. Sentiu no fundo da alma, a dor e a alegria que sente uma mãe quando dá à luz a um filho (Is 49, 15), (1 RS 3,26).

Cristo compartilha conosco a profundidade do Coração de Seu Pai. O dinamismo na penitência e na conversão descritas por Ele na parábola (Lc 15, 11-24), o fascínio de uma ilusória liberdade, o abandono da casa paterna; a miséria em que se encontra o filho mais novo após ter esbanjar sua herança; a humilhação de ver-se obrigado a cuidar dos porcos e, mais, de querer matar a fome com a sua ração; a tomada de consciência sobre os bens perdidos; o arrependimento e a decisão de se reconhecer culpado diante do pai; o caminho de volta; o alegre acolhimento por parte do pai; tudo isso são traços específicos do processo de conversão (CIC 1439).

Jesus nos fala de um Pai que corre apressadamente ao encontro de seu filho (Lc 15,20). Seus passos são como música. Seu correr é harmonioso e podemos até escutar neste doce movimento de amor, as melodias eternas do Céu. Seria fantástico contemplar como estaríamos a pouco menos de um segundo de receber o interminável abraço do Pai. Se tivéssemos consciência da dimensão deste doce encontro com Deus, nossos corações precisariam já experimentar da eternidade, a fim de que pudessem resistir a tal manifestação de amor.

Quando repetimos a jaculatória de nosso chamado: “Meu Senhor, Meu Deus e Meu Tudo, ponde em mim Vossas Mãos de Pai”, estamos firmando a certeza de que nos encontramos às vésperas com a experiência do abraço de Deus. Ele nos abraça, faz-nos crianças pequeninas e nos põe em Suas Mãos de Pai.

Seu abraço interminável vem nos restabelecer a paz interior. No silêncio do toque de Suas Mãos somos cuidados e restituídos em nossas perdas. Quando procurarmos nos erguer a fim de encontrá-LO, Ele já tem se inclinado para nos acolher.

Retornar a Casa do Pai é um chamado para todos. Não muitos, porém, são aqueles que se permitem amar como filhos.

As motivações para voltarmos à Casa do Pai são muitas. Não retornamos ao aconchego paterno apenas porque somos maltratados pelo pecado; porque nos deparamos com as necessidades ou ainda, porque reconhecemos que é esse o amor que nos alimenta. Voltamos para Deus porque Ele nos criou para Si.

Todos nós conhecemos o caminho de volta para Casa do Pai. Se alguém não retorna, não o faz por não tê-lO conhecido intimamente.

A bela túnica, o anel e o banquete da festa são símbolos desta vida nova, cheia de alegria, que é a vida do homem que volta à Deus e à Igreja. Só o coração de Cristo, que conhece a intimidade do amor do Pai, pôde revelar-nos, em plenitude, o abismo de Sua misericórdia. (CIC 1439)

Desejar a santidade é ter a oportunidade de trilhar o caminho do Amor. Ele começa com uma espécie de “constrangimento”; exatamente por termos sido perdoados e acolhidos por Deus, ainda que desejássemos continuar gastando Seus bens. Sentimo-nos constrangidos com o olhar de amor do Pai. Este amor tem a capacidade de desconsertar qualquer coração. No constrangimento, o Pai nos conquista. Ele nos desinstala de nós mesmos.

Sentimos necessidade de responder ao Amor. Somos impulsionados a uma nova vivência, firmada na doação; na entrega de si, mesmo que em pequenos e simples gestos. Aquilo que hoje pode ser para nós muito pouco, tem em Deus a capacidade de crescer e de se transformar (Lc 13,18-21). Quando imaginarmos nossos pequenos atos de amor, busquemos contemplar uma pequena faísca. Se jogada em meio às folhas secas, pode ocasionar um grande incêndio.

Quem de fato reconhece a ação da misericórdia de Deus em sua história deseja responder, assumir uma nova postura diante da vida. A gratidão gera no coração do homem a verdadeira alegria; fruto da misericórdia de Deus.

Purifiquemo-nos no fogo do Amor. Façamos sempre um exame de consciência, refletindo como estamos priorizando nossas necessidades: família, amigos, trabalho, lazer, bens materiais. Estejamos vigilantes na oração, sempre dispostos a tudo subordinar ao Amor de Deus. Ele é o Centro. Quando verdadeiramente Ele ocupar o lugar primeiro em nossas vidas, tudo o mais nos será dado em acréscimo. (Mt 6, 33).

———————————————————————-

Carisma: Reconhecer-se filho(a) pequenino(a) nas Mãos do Pai, para Manifestar Sua Paternidade e Maternidade no Mundo.

sacramental-e-aliançaEu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.” (Mt 11,25)

O caminho para manifestar a paternidade de Deus no mundo, dar-se-á plenamente por meio de um carisma todo especial; o retorno à pequenez (Mc 10, 14-16). Somente acolhendo a vida com um “coração de criança” (Mt 5, 48) é que conseguiremos sentir a ação do Amor do Pai, enxergar a simplicidade com que Ele nos atrai para si, no cumprimento de Seu propósito maior: levar-nos a vivência plena da felicidade; do sumo bem.

Somente quando nos deixarmos amar como crianças pequeninas, é que poderemos nos aconchegar na justa medida do Amor das Mãos do Pai.

O “coração de criança” manifesta as virtudes necessárias para a busca da santidade: a alegria, a gratidão, a empatia, a misericórdia, o cuidado, a doação, a simplicidade e o abandono na vontade de Deus. Atraídos por este desejo de santidade, busquemos a todo custo nos revestir destas virtudes, tão próprias do chamado Mãos de Pai.

Tenhamos em nós os mesmos sentimentos de Cristo, tão bem configurados ao coração das crianças. Ele mesmo nos assegurou que o Seu Reino pertencia a elas.

Somente é filho de Deus aquele que experimenta do retorno à pequenez, pois só um filho se abandona com total confiança nas Mãos do Pai. Deixa-se tocar, modelar e conduzir pelo Amor, na certeza de que nunca estará sozinho. Pode então se reconhecer filho de Deus, na medida em que recupera a essência de seu coração (Mc 10,15).

Não percamos a simplicidade. Ela nos faz conhecer em profundidade o Amor e nos permite enxergar o incomum no cotidiano da vida. Deus esconde Sua graça extraordinária nas situações ordinárias e derrama o Sobrenatural em experiências naturais.

Ser simples é ao mesmo tempo não ter nada e possuir Tudo. É estar sempre vazio para se preencher e se esvaziar uma vez mais. É não fazer exigências a Deus e a ninguém. É contentar-se com o essencial e ser feliz; uma graça que nos conduz ao amor espontâneo.

Ser simples é ser pobre, casto e obediente como Jesus.

O coração das crianças também é feito de muita alegria. Deus quer sorrir nos nossos lábios cada vez que reencontrar um filho Seu. Quer fazer festa, como expressão de Sua imensa felicidade ao acolher aquele que retorna a Casa; à Vida. A alegria enche o coração de Fé, de Esperança e de Caridade. Devolve o sentimento de “espanto”, de “assombro”, que somente uma criança experimenta ao se deparar com aquilo que tanto sonhava. A alegria enche de ânimo novo os olhos de quem ama! Ela só realiza aqueles que a partilham. Viver a alegria é desejar sempre mais santidade. Somos alegria no Coração do Pai e a alegria do Pai é força no coração do homem.

Atendendo ao apelo de Deus, por meio de um chamado específico, sentimo-nos conduzidos a vivenciar, a partir de nossa caminhada e de nosso desejo de santidade, a experiência com o cuidado de Deus, através da manifestação de Sua paternidade e da ação de Sua misericórdia no mundo.

Para que esse projeto se torne real, precisamos levar ao mundo uma experiência de amor que transborde do testemunho. Empenhemo-nos continuamente, por oferecer um testemunho de vida, firmado no amor de um Deus, que se faz ao mesmo tempo, “Pai e Mãe” para a humanidade.

Ao reconhecermos a Deus como Pai, nós confirmamos o Seu Amor, como origem primeira de tudo. Uma ternura paterna de Deus que pode também ser expressa pela linguagem da maternidade (Is 66, 13; Sl 131, 2).

O Senhor nos criou para a intimidade com Ele. A experiência humana que fazemos com nossos pais (genitores), que são de certo modo os primeiros representantes de Deus para o homem, deve nos conduzir a plenitude do Amor de Deus. Porém, essa experiência humana nos mostra também que os pais humanos são falíveis e que podem desfigurar, com suas limitações e fraquezas, o rosto da paternidade e da maternidade.

Convém então nos lembrarmos de que Deus transcende a distinção humana dos sexos. Ele não é nem homem, nem mulher, e sim Deus. Transcende também a paternidade e a maternidade humanas (Sl 27, 10), muito embora seja a sua origem e a sua medida (Ef 3, 14-15; Is 49, 15). Indiscutivelmente ninguém é pai como Deus o é (CIC 239).

Por meio de Suas Mãos, o Pai modelou no coração da humanidade o Seu Amor Misericordioso (Lc 6, 36). Pelas Mãos ensanguentadas de Seu Filho Jesus, tivemos a dignidade restaurada e hoje estamos libertos da condenação eterna (Rm 8, 1s). Nas Mãos do Santo Espírito somos santificados, renovando a cada dia nossa vocação à santidade (2Tl 2, 13).

Com as mãos podemos construir ou destruir; curar ou ferir; plantar ou devastar; cultivar a paz ou propagar a violência. Com Suas Mãos, O Deus Criador de todas as coisas, modelou-nos em Seu Amor, expressando continuamente a delicadeza de Seu Cuidado.

Atentos ao chamado que nos faz o Senhor, queremos, portanto, dispor nossas mãos, para que se tornem fortes instrumentos da manifestação do Cuidado e da Misericórdia do Pai.

Precisamos estar continuamente nas Mãos do Pai, porque somente abandonados em Seu Amor, seremos modelados para Sua Divina Vontade. Em Suas Mãos de Pai seremos cuidados, particularmente em nossas misérias, e conduzidos para a vivência integral do Verdadeiro Amor. Em Suas Mãos de Pai também encontraremos um lugar contínuo de descanso, de proteção e de consolo.

PaternidadePara que possamos manifestar no mundo a paternidade de Deus (Lc 15, 11-32), somos chamados antes a mergulhar nas entranhas de Seu amor misericordioso (Os 11, 1-9). Perdidos neste abismo insondável de misericórdia (Jo 19, 34), faremos experiência de seguro abandono (Sl 23(22), 2). Neste amor incondicional e misericordioso, encontraremos a paz verdadeira; a paz sem fim; já não precisaremos mendigar amor no mundo, pois nada nos falta, Ele é o nosso tudo.

Somente a entrega incondicional e absoluta a este Amor Soberano pode preencher os vazios, responder às inquietações e despertar o melhor que cada um de nós pode oferecer ao mundo. Esse abandono em Deus dá sentido à entrega, à doação e ao serviço.

Somente Deus é Eterno; tudo mais passa. Depositemos no Eterno tudo o que somos e o que temos. Deus sabe do que precisamos e com certeza não nos deixará faltar coisa alguma. Deixemos que Ele seja o Centro e que a partir Dele, toda a nossa vida seja ordenada para o amor. Para aqueles que se deixam conduzir pelo Bom Pastor; nada lhes falta! (Sl 23(22), 1)

Desejamos ter em nós as Mãos do Pai, porque somente através Delas, poderemos acolher nossos irmãos em suas fragilidades e misérias. Oferecemos nossas mãos ao Pai, para que elas sejam instrumentos do Seu Cuidado, da Sua zelosa atenção, vias de acesso ao coração dos homens.

Somos Suas Mãos sempre que permitirmos que Seu Amor Paternal se manifeste concretamente, em nós, pela ação de Sua Misericórdia. Seguindo o exemplo de Nosso Mestre Jesus, que de modo perfeito agradou o Pai, desejamos também contribuir para que a Misericórdia Divina chegue ao coração dos homens.

NOSSO SENHOR, NOSSO DEUS E NOSSO TUDO,
PONDE EM NÓS, VOSSAS MÃOS DE PAI!