Preparando-se para o momento da oração

 

Três tipos de pessoas se equivocam sobre a oração:

1. Os atentos: julgam que o essencial, durante a oração, é estar atento a Deus com uma atenção sem desfalecimento. Ora, eles só chegam a breves instantes de atenção. No resto do tempo são levados por toda espécie de pensamentos, sentimentos, devaneios, impressões, que eles chamam de "distrações" porque isso os distrai de sua atenção a Deus. Não tardam a desanimar. Fazem mal: o valor da oração não se mede pela estabilidade da atenção do espírito. A oração pode ser boa sem essa estabilidade. Não está nisso o essencial. O que não quer dizer que seja inútil recorrer aos métodos e meios que favorecem a atenção.

2. Os intelectuais: imaginam que o essencial consiste em buscar e cultivar belos e profundos pensamentos sobre Deus. Radiante de contentamento quando alcançam esse objetivo, desalenta-se quando seu espírito está como que entorpecido, estéril.

3. Os sensíveis: se desesperam quando não experimentam em si impressões exaltantes ou tonificantes: por exemplo, o sentimento de certa presença de Deus acompanhada de alegria e paz, ou então um fervor de amor, um entusiasmo. Conheceram, sem dúvida, um dia ou outro essas "impressões", e desde então vêm à oração, ávidos por reencontrá-las. Perdem-se pelo caminho. No domínio da oração, é a pessoa desinteressada que vem a Deus por causa de Deus e não por causa de si mesma. "Que diferença entre o que vai ao banquete pelo banquete e o que vai ao banquete pelo bem-amado!" Fervor e abundância de sentimentos não são o essencial da oração, mas um acompanhamento concedido por Deus quando Ele quiser e a quem Ele quiser.

Mas, se o essencial da oração não está nem na estabilidade da atenção, nem no "eu penso", nem no "eu sinto", onde encontrá-lo? No "eu quero", na adesão de sua vontade a Vontade de Deus. O que equivale a dizer que a oração não é questão de atenção, nem de atividade intelectual, nem de sensibilidade. Ela consiste nessa orientação que você imprime voluntariamente em seu "coração profundo". O mais importante é que na oração o "eu quero" seja definido por um lúcido e vigoroso ato de vontade. Direi, por exemplo: "o que eu quero desta oração, Senhor, é o que Tu queres". "Ponho-me, Senhor, à tua disposição". Estar verdadeiramente presente. Tornar-se presente a Deus desde o início da oração é estabelecer a relação Eu-Tu. Ele, de sua parte, lhe está presente.

Você deve corresponder a esta Presença com sua presença. A relação Eu-Tu será mais cordial, concreta, viva se, ao me aproximar de Deus, procuro entrar nas suas intenções. Por que não lhe perguntar: "Senhor, que esperas de mim?" Há sempre o risco de se concentrar em si mesmo, de só ficar atento às próprias emoções. Deve privilegiar o "eu quero" porque ele é em você o que é mais você mesmo, sua vontade, sua liberdade que assume posição e compromisso.

Na oração, Deus dá menos atenção aos seus desfalecimentos, às suas fraquezas, que ao seu profundo "quero ser inteiramente teu". Quando é o tédio que reina, quando você está sem pensamentos, sem amor... Longe de se desencorajar, voltará com toda a tranqüilidade, toda a calma ao "eu quero". "Eu quero, Senhor, o que tu queres desta oração, fervorosa ou desértica, como quiseres".
Esses "eu quero", repetidos de tempos em tempos, são as torres que sustentam a linha de alta tensão através dos campos. Elas transportam minha oração. Reservar o espaço do silêncio na oração, pois "em matéria de amor mais vale o silêncio que um longo discurso" (Pascal). Por que querer sempre falar ou fazer quando bastaria estar presente. Com Deus. Para Deus. Oferecido. Meu "eu quero" será a alma de seu silêncio. Durante a oração nos entretemos familiarmente com o Senhor de nossas alegrias e trabalhos, de nossos desejos e contrariedades, de nossa vida... Ser verdadeiro. Não se enfeitar para ir ao encontro de Deus. Com cuidado de evitar a tagarelice. "Se Deus deu ao homem duas orelhas e só uma boca, é para sugerir que se leve duas vezes mais tempo escutando que falando".

Solidão, Solidez e Solidariedade

A solidão, a solidez e a solidariedade são três dimensões da oração cristã, consideradas não como realidades paralelas, mas como três pontos de vista de uma só, rica e complexa realidade. Três dimensões que não se excluem, mas se interagem e se exigem mutuamente, num movimento circular. A solidão é um momento fundamental na vida cristã. Sem ela a pessoa se mascara e se aliena, dilui-se e se desintegra espiritualmente de tal modo que seu interior fica um imenso vazio; esse vazio, tão comum à solidão dos que permanecem fechados em si mesmos, é que gera a angústia e o desespero. A solidão é indispensável ao ser humano engajado, por mais ativa e atribulada que seja a sua vida. Ela o impede de ser tragado pelo ativismo que põe em risco a própria eficácia da luta. Ela proporciona o recuo necessário à visão de conjunto, à crítica e à autocrítica. Nela a pessoa se abastece, recupera suas energias criativas, areja o espírito, avalia corretamente a realidade. Colocando a pessoa diante de si mesma, a solidão é como um espelho, no qual ela vê aquilo que em sua vida é detrito, é carga supérflua, poeira acumulada... E essa limpeza purifica e renova.

 
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