CHAVE - Há muita gente que ouve Jesus. Ele está perto do lago, vê duas barcas com os pescadores que já desceram e estão limpando as redes. Sobe numa daquelas barcas, a de Pedro. Pede que a afaste um pouco da margem e, sentado, pôs-se a ensinar. Podemos imaginar o sentimento de Pedro que fica envaidecido pelo fato de que foi escolhida sua barca. Pedro está vivendo um momento de euforia. Acabado o discurso, Pedro pensa em descer a terra e receber os cumprimentos do povo. Mas Jesus, sem mais, diz-lhe que se faça ao largo e lance as redes. Certamente, há uma mudança em Pedro... Da resposta que ele dá pode-se adivinhar que em sua mente surgem dúvidas sobre as palavras do Mestre porque a hora já está adiantada, a pescaria acabou e não há peixes.
Provavelmente Pedro pensa na figura que farão se depois não acontecer nada. É um instante difícil no qual a confiança de Pedro no Mestre pode ficar abalada: talvez lhe conviesse negar-se simplesmente a isso, evitando esta prova que poderia levá-lo ao ridículo diante do povo.
“Trabalhamos a noite toda e não pescamos nada”. Sensação de cansaço... Se ceder a este cansaço estará recuando diante do oferecimento de Jesus. Se, ao contrário, Pedro se decidir superar tanto a fadiga que o oprime como também o ridículo que o ameaça, então teremos um homem que supera a própria desconfiança: “Na tua Palavra lançarei as redes...”. Notemos quanto há de profundo nesta expressão que na Bíblia designa a atitude do homem diante de Deus. Pedro passa a ser a figura do homem que se compromete também nas coisas pequenas e simples mas que exigem certa decisão. Sai dos cálculos e se atira, confiando na Palavra do Senhor. Os que calculam muito, os que estão continuamente preocupados consigo mesmos, com as vantagens que possam obter os que querem verificar tudo para ver se coincide ou não com as próprias seguranças, não são aptos para o seguimento de Jesus.
Na realidade, o seguidor de Jesus revela-se precisamente nestes momentos. É questão de “arriscar”, de dar algum passo além daquilo que é puramente seguro e sólido. “Quem se arrisca, pode errar; quem não se arrisca, já errou”. No fundo, é o próprio Pedro que pula para fora da barca para lançar-se ao lago. É o amor que suscita no homem este atirar-se. Pedro é tocado por Jesus na sua disponibilidade para aquela capacidade de risco... E a rede lançada na Palavra de Jesus se enche... Chegam outras barcas e também estão para afundar.
Vendo isso, Pedro se lança aos pés de Jesus, dizendo: “Afasta-te de mim, pois sou homem pecador”. Colocado diante da santidade de Deus, Pedro sentiu que muitas coisas de sua vida não funcionavam. Jesus leva Pedro a provar um ato de confiança; leva Pedro a uma sincera purificação, à humildade, ao reconhecimento da necessidade da misericórdia de Deus... Pedro deu um passo tão decisivo de libertação interior que todos os temores que antes podia ter com relação àquilo que pensa e diz o povo, foram superados.
Jesus forma o seu seguidor através destes saltos de confiança, com a apresentação de seu poder; gradualmente, faz emergir um verdadeiro sentimento penitencial. O episódio se encerra com uma última reviravolta da realidade. Pedro espera que o Senhor o confirme em seu sentimento de penitência, mas Jesus lhe diz: “Não temas; doravante, a partir deste momento, tu serás pescador de homens”. É uma reviravolta da situação. Desde homem confiante fez um homem que soube reconhecer espontaneamente a própria pobreza; agora, deste homem humilhado na sua pobreza, faz um homem cheio de confiança. |